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terça-feira, agosto 23, 2011

Quando eu passei


  Escutei seus gritos do outro lado da cidade, você pedia para alguém te achar, e esse alguém era eu. Não entendi (e ainda não entendo) o porquê da gritaria, mas por mim, tudo bem, eu sei o quanto este mundo é insano.
  Aqui ando eu, a perambular pelos corredores da minha casa, e enquanto isso você fica sentada no seu quarto, a olhar pela janela, a observar os cachorros que passam pela rua como se isso fosse a única coisa possível a se fazer em uma tarde de outono. Conte-me: vale a pena observar o asfalto deste jeito que você tanto faz?
  Você deveria ir fazer outro algo que gosta, mas espero que saiba que precisa fazê-lo de forma sábia, afinal, você sabe que eu sou um perdedor, um pecador e eu não preciso de opiniões para saber que os outros estão certos, pois eu sei que sempre estou errado.
  Então enxugue seus olhos, garotinha. Não venha se sentindo solitária mais uma vez, já vi tudo isso acontecer um tempo atrás, mas a questão é que não há tempo para procurar meio-mundo, pois você já me achou no exato momento em que eu passei por você.

... naquele momento em que eu passei por você.

terça-feira, agosto 16, 2011

Um mergulho nas nuvens


  Era um dia sem fim, tudo parecia perdido, sem futuro, sem luz.
  As trevas pareciam tomar conta da sua vida. Não sabia ao certo se continuava ou se partia. Não sabia o que fazer, o que descrever, o que enfrentar.
  Olhou no espelho, viu seus olhos marejados, marejados como um návio perdido em um naufrágio. Chorou ainda mais.
  - Quem sabe a altura não seja tão alta. - Pensou. - Quem sabe o Paraíso exista. Quem sabe a Esperança é um último suspiro...


... respirou fundo, foi até a janela e pulou. Pulou e caiu nas nuvens. Ficou emergida nelas. Aprendera a voar. Aprendera a não respirar. Aprendera a não sofrer. Aprendera a ser corajosa e destemida, porém não aprendera a viver, e por isso o lamento não teve fim, como desejara.

segunda-feira, julho 18, 2011

Uma mente desorientada

  Querido Diário,
  Hoje vim aqui para dizer-lhe sobre o quanto eu ando preocupada comigo mesma.
  Vozes estranhas andam rondando pelos ares da minha residência, tenho a impressão de ter mil olhos, sorrateiros, a observar-me ao menos 23h por dia, e sabe o que é o mais engraçado? Apesar de todos esses olhos aparentarem estar a todo momento me olhando, eu não tenho vontade de sair de casa; eu abomino, mas ao mesmo tempo não faço preocupação a eles.
  A Ritinha me ligou no início da semana, disse que estava preocupada comigo, pois (diz ela) que eu ando sumida há cerca de um mês, mas engraçado... para mim parece que eu a vi no fim de semana passado! Será que eu perdi a noção do tempo?
  Ricardo também ligou para mim, comentou que havíamos marcado um chá na terça passada, no princípio da noite, mas eu achei que o encontro seria na próxima sexta! Acho que esse mundo anda meio confuso e querem me fazer de antagonista.
  Será que eu preciso largar meus livros, cessar minhas leituras e olhar mais pela janela? Observar os jardins que eu tenho ao redor da minha casa? Será que eu preciso cegar todos os olhos que parecem me perseguir? Ou será que eu preciso cegar a mim mesma?
  Sei que eu não sei mais nada sobre isso de viver. Até acho que eu, nos meus 30 anos, não vivo mais. Minhas aventuras se esgotaram (... e eu não ligo).
  Ops, ouvi um barulho de panela caindo na minha cozinha, irei averiguar se, além de olhos, há mãos ao meu redor, e se elas vão começar a perseguir-me também.
Saúde e sanidade,
Uma mente desorientada.

quarta-feira, junho 22, 2011

Uma carta


“Hello, I've waited here for you everlong.
Tonight I throw myself into and out of the red, out of her head she sang.
Come down and waste away with me, down with me.
Slow, how you wanted it to be.
Over my head, out of my head she sang.
And I wonder, when I sing along with you if everything could ever feel this real forever;
 if anything could ever be this good again.
The only thing I'll ever ask of you: you've gotta promise not to stop when I say ‘when’.
She sang.”
Foo Fighters - Everlong


  Carlos Eduardo acordara pela manhã. Os olhos, lacrimejados pelo sono, abriram-se e ele observara com dificuldade que estava sozinho no quarto. Sua companheira havia lhe deixado um bilhete no travesseiro. Ele pegou o mesmo, confuso, e então iniciou a sua leitura com a vista embaçada pela sonolência.


"Cadu,
  Tive que partir hoje, preciso repensar em algumas coisas. Desculpe-me não ter te acordado para despedir-me, observei-o dormindo tão angelicalmente que fiquei com dó de despertá-lo.
  Irei passar algum tempo fora da cidade, assuntos pessoais (não que você não seja também um "assunto pessoal", mas preciso ajeitar outros pontos da minha vida).
  Talvez um dia eu volte, e se voltar, entrarei em contato para revê-lo, mas por instância preciso cuidar de meu marido e meus filhos (também sinto não tê-lhe informado sobre eles antes).
  Esses dias que passamos juntos foram inesquecíveis; obrigada por tudo, e tenho certeza que um dia me agradecerá por ter ido embora assim.
  Você é um belo rapaz, em breve achará uma mulher que dê tudo o que você merece.
Com amor e belas lembranças,
Amélia."


  Cadu surpreendeu-se com o que Amélia havia revelado, mas não se sentiu enraivecido por isto, pois "a mulher que daria tudo o que ele merece" chegaria no próximo fim de semana, depois de passar dois meses no sul do país, fazendo um curso de especialização.

Não-tão-bom-partido

"He doesn't look a thing like Jesus but more than you'll ever know."
The Killers - When you were young


  Olhar azul, como a cor do céu no mês de Janeiro, verão brasileiro; tão caloroso quanto qualquer país tropical; corpo esbelto, digno de desfilar por horas na praia, um corpo que deixaria qualquer mulher vidrada; uma voz suave, doce, que encanta os mais belos pássaros e faz toda a natureza cantar junto com ele; cabelo negro e ondulado, que se destaca totalmente da sua pele alva e lisa, e este contraste o faz chamar mais a atenção de todos.
  De uma família bem estruturada, descendente de franceses, com propriedades em todo o país (e até mesmo algumas na Europa). Filho de empresários. O "sonho de consumo de muitas mulheres".
  Por onde passa deixa rastros de seu perfume, deixa jovens a apreciá-lo, deixa homens com um pingo de inveja.
  Louis, 22 anos, vive uma vida que todos desejam ter um dia: não estuda, não trabalha, sai sempre que pode, viaja para onde quer, faz o que bem entender.
  Cativa muita gente com sua aparência, porém a aparência é apenas um detalhe, e o resto... bom, o resto deixa a desejar.
  Louis, 22 anos, capricorniano, rico, charmoso, bonito, malhado, frequentador nato de baladas e viajante "de primeira" não sabe qual o motivo de fazer tudo o que faz. Ele simplesmente vive por viver, não tem objetivos concretos, e pelo fato de sua família ter uma herança boa o suficiente para mantê-lo vivo até seus últimos dias, ele se acomodou.
  Ia para o colégio quando mais jovem, estudava nos melhores deles, mas no fim do Ensino Médio se formou sem muito conhecimento: apenas decorou a matéria e esqueceu-se da mesma em seguida.
  Não quis fazer faculdade porque nunca soube ao certo o que "queria ser quando crescer" - na verdade, até sabia, mas anos atrás, quando criança; quando mais precisava saber o que seria esqueceu-se de seus sonhos de infância.
  Nunca procurou emprego, sempre achou que "meras experiências profissionais" não eram necessárias. Nunca achou que amadurecer fosse uma verdade. 
  Filmes? Só assiste os que passam de noite, na Globo - e para pegar no sono. Livros? Nunca lê, só "lê" outdoors por aí quando volta de viagem pelas rodovias.
  Louis sabe impressionar quando quer, mas quando mais precisa não consegue fazê-lo. A primeira impressão que podemos ter dele, por sua aparência e tudo o mais, é que ele vale toda a pena, mas no fim descobrimos que a pena não vale tanto assim.
  Ah, quer saber? De Louis não quero mais saber. Prefiro continuar com meus textos a continuar escrevendo este aqui, cujo protagonista não gostaria de lê-lo e ao mesmo tempo é antagonista de si mesmo.
  Os “Louis” por aí que me desculpem, mas como dizia a minha avó: beleza não se põe na mesa.